Vereador pelo PT em Santa Maria/Rio Grande do Sul por dois mandatos consecutivos, depois em 1999 a 2000 deputado estadual. No mesmo ano, é vice-prefeito da cidade até 2003, quando elege para deputado federal para mandato até 2007. Em 2006, novamente eleito. Jornalista por formaçao, Paulo Pimenta aborda temas das novas tecnologias, a retomada do diploma de jornalismo, sociedade aberta na entrevista concedida ao Blog Alex Cruz. Uma boa leitura!!!
Defendendo a retomada do diploma de jornalismo
P - Seja bem vindo ao Blog Alex Cruz, deputado Paulo PImenta, há uma Proposta de Emenda Constitucional que recupera a exigência do diploma de superior para a profissao de jornalista. Quais sao as perspectivas para a volta do diploma?
R - A volta do diploma é um clamor da sociedade. Segundo pesquisa da Federação Nacional dos Jornalistas, 77% da população é favorável a volta do diploma de jornalista. A PEC transmite mais garantias à sociedade de um trabalho profissional, sério e comprometido com o interesse social. Maus profissionais existem em diferentes áreas, mas não é por isso que vão acabar com o diploma de outras carreiras, como medicina, engenharia ou direito. Com a decisão do STF, a sociedade ficou mais frágil, menos crítica, e ao longo do tempo será cada vez mais manipulada pelos grandes grupos de comunicação do país. A falta de exigência do diploma representa também um retrocesso na área da pesquisa científica no campo da comunicação, causado pela diminuição do número de mestres e doutores na área, em virtude da pouca procura pelo curso. Dessa forma, a área acadêmica do jornalismo ficará sem avaliação, sem autocrítica, fundamental para sua evolução.
P - Há um pensamento anônimo que diz assim: "a liberdade produz monstros, mas a falta de liberdade produz, todavia, mais monstros." Quatro semanas atrás, o editorial do jornal Zero Hora, do Grupo RBS, filiada a Rede Globo, produziu um ataque contra os blogs e reivindicando uma classe de regularizaçao no Congresso. Deputado, estamos diante de uma ameaça de cerceamento de liberdade de expressao pelo bloco conservador?
R - Os grandes grupos de comunicação sempre ostentaram a posição de formadores de opinião, apresentando-se como entidades que simbolizavam a "verdade absoluta". Com o advento da internet, alguns paradigmas foram quebrados, transformando e modificando este cenário. Assim, podemos dizer que estamos vivendo um período de democratização da informação. Com a ampliação do acesso à informação, interagir, integrar e expandir conceitos ficou mais viável. Desse modo, o fato que, antigamente, era repassado como único e exclusivo, hoje, pode ser ampliado por outros meios de comunicação que não estão subordinados aos grandes veículos da comunicação. Dessa forma, o mito da "verdade absoluta" deixa de existir, colidindo os interesses de quem, antes, era detentor exclusivo do poder de informar. Assim, fica explicito que, atualmente, na "Era da Informação", os blogs, ao chamar a atenção do receptor por alguns instantes, abalam as estruturas das grandes empresas de comunicação, que perdem prestígio e cedem espaço para novas ferramentas de comunicação, criadas a partir do avanço tecnológico.
P - Ao mesmo tempo que é necessário a retomada do diploma do jornalismo, no universo digital qualquer pessoa pode produzir informaçao e ter influência se a notícia tem relevância. Dito isto, a influência do jornalista está deixando de ser um sujeito indispensável entre os poderes políticos e o cidadao? Como trabalhar esta contradiçao?
R - Considero a internet o meio que mais possibilita o exercício da liberdade de expressão e esse pode ser considerado o grande viés da mídia digital. Em blogs, sites e redes sociais qualquer cidadão expressa sua opinião e amplia assuntos e discussões. Dessa forma, para não entrarmos em contradição, é preciso ressaltar a importância do papel do jornalista, detalhando as especificidades da função dentro do campo da comunicação. O direito de opinar é livre para qualquer cidadão, porém, destaco que ao jornalista, cabe, apenas, a tarefa de informar, apurando e investigando os fatos com a finalidade de transmitir um conteúdo de forma imparcial, direta e objetiva. Assim, fica evidente que quanto mais facilidade de acesso à informação a população tem, mais necessário será a figura do jornalista, pois, neste contexto, é o trabalho do profissional que garantirá êxito no processo de comunicação, evitando ruídos ou falhas na transmissão de informação. O jornalista deve ser encarado como um filtro de informação, atuando como um mediador. Para isso, torna-se indispensável a formação acadêmica, pois é nesta etapa que as técnicas são aprimoradas e o "faro" jornalístico é aperfeiçoado.
P - Pimenta, uma das grandes mudanças na rede é que existe maior interaçao entre nós, jornalistas, e leitores porque eles respondem imediatamente. Se sucede um equívoco ou nao, por exemplo, em dois minutos o leitor escreve, comenta. No entanto, há um desejo e uma esperança também que a tecnologia ajude a melhorar a política para ficar próximo ao cidadao facilitando o acesso aos dados e informaçao pública que manejam o governo. Por que nao se tem público a informaçao que realiza as Administraçoes como, por exemplo, em menos de um minuto saber onde foi destinado os impostos como sucede no Reino Unido?
R - Ao longo de minha trajetória, sempre defendi que uma boa administração pública tem como base principal a transparência. Infelizmente, hoje, ainda existem alguns setores da sociedade, que mantém uma linha de conduta conservadora e preferem impedir que a população tenha conhecimento de suas ações. Essa atitude, que considero totalmente arbitrária e retrógrada, tem a finalidade de distanciar a população brasileira das grandes decisões, criando uma espécie de proteção a um pequeno grupo da sociedade. Como forma de incentivar a participação popular no Congresso Nacional, apresentei o projeto de lei nomeado de "Cidadão Digital", que permite a total interação entre a sociedade e o Poder Legislativo. Através dessa iniciativa, a população pode interferir de maneira direta no cotidiano do Parlamento Brasileiro, sugerindo propostas e iniciativas que atendam as reais necessidades da população. A transparência é o antídoto capaz de provocar uma alteração cultural de procedimentos que rompam com práticas que historicamente estão presentes na política brasileira. Nossa legislação tem de ser atualizada no sentido de criar mecanismos para permitir que a imprensa e a sociedade possam em tempo real acompanhar licitações, contratos, convênios e todos os atos das administrações públicas.
P - Como encara a opiniao geral que os interesses dos políticos nao correspondem ao da populaçao? E, nao estou me referindo aos políticos de forma individual, sim, em grandes aparelhos de partidos convertidos em máquinas de poder.
R - Como disse anteriormente, é lamentável que ainda existem grupos defensores da opinião que o trabalho de legislar compete apenas aos parlamentares. Acredito que para construirmos um futuro melhor para todos é indispensável, cada vez, mais a participação da sociedade no contexto político, contribuindo com a construção de propostas e iniciativas que viabilizem o desenvolvimento de nosso país.
P - Para encerrar, há muita publicidade, seja na imprensa escrita, seja na internet de anúncios de prostituiçao passando uma imagem de normalidade para sociedade brasileira, quando na verdade sao mulheres exploradas (geralmente sao oriundas de um meio violento e de exclusao social que buscam esta alternativa) e muitas vezes pode estar por detrás, máfias. Quando veremos uma legislaçao coibindo este tipo de anúncio?
R - Infelizmente, em nossa sociedade, o interesse financeiro está atropelando valores humanos. Parece que apesar de estarmos interligados, vivendo em grupo, não nos importamos nem um pouco com consequências e atitudes que prejudiquem os outros. Hoje, existe distanciamento entre as pessoas, que menospreza o interesse coletivo e a luta por um bem maior, um bem comum. Temos que ampliar o debate sobre o assunto, acabando com contradições que testemunhamos diariamente. Acredito que o melhor caminho seja o de avançar com nossa legislação sentido, não de proibir a publicidade, mas, sim de tornar obrigatório por parte do mercado publicitário sua responsabilidade de contrapartida social, definindo com clareza o papel de cada indivíduo, cidadão, entidade ou instituição dentro da sociedade brasileira.

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