Segundo a Organizaçao Mundial da Saúde, em 2020 a depressao será primeira causa de enfermidade, apenas perdendo para problemas cardiovasculares. Para alguns especialistas, esta previsao já é uma infeliz realidade atualmente. Além disso, há um dado que tudo indica que este mal afeta a mulher o dobro do que dos homens. Para responder este tema, Blog Alex Cruz convidou a psicológa Denise Werner, Pós-Graduada em Recursos Humanos pela PUC-RS, especialista em Empresas Familiares pela Unisinos e co-autora do livro o lado (des)humano da Terceirizaçao. Boa leitura!!!
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| Especialista em desenvolvimento humano |
P - Denise Werner, a mulher tem muitos papéis e um deles é a exigência de ser uma profissional competindo no máximo nível. Este grau de exigência e diversidade de papéis pode ser colocado como a causa da depressão afetar mais o gênero feminino que o masculino?
R – Não como a causa, mas sim como uma das causas. Segundo pesquisas, a depressão atinge a proporção de duas mulheres para um homem, o que sugere uma predisposição aos sintomas depressivos maior no gênero feminino. Em contrapartida, homens cometem maior número de suicídios do que as mulheres, fato que pode gerar uma nova e talvez mais longa discussão em outro oportuno momento.
Estudos indicam que até a adolescência não se diferenciam os índices de depressão em meninos e meninas, pelo menos significativamente. Este fato leva a inferir sobre a origem biológica de alguns sintomas. Mas, sem dúvida, há uma pluralidade de fatores etiológicos envolvidos, que englobam aspectos psicossociais, como os que tu citaste na pergunta, bem como aspectos biológicos, mas nada ainda está conclusivamente comprovado. Estudos mostram que a mulher á mais suscetível ao estresse em função de um funcionamento diferenciado do homem de seus agentes neurotransmissores, ou seja, a organização hormonal de resposta ao estresse na mulher seria diferente da do homem. Em outras palavras, é como se a mulher (por natureza) fosse mais sensível e conseqüentemente sentisse com maior intensidade as situações de estresse. Além desse aspecto somam-se as oscilações do funcionamento hormonal feminino e suas conseqüências, observadas tanto na famosa “Depressão pós-parto” como na “Síndrome Pré Menstrual”. Também tem se dado importância aos fatores hereditários e endógenos como determinantes na maior probabilidade de desenvolver depressão. Assim sendo, é provável que o nível de exigência atual relativo aos diferentes papéis da mulher na sociedade seja realmente um dos fatores responsáveis pelo aumento de mulheres com sintomas depressivos.
P - Tenho a sensação que a depressão para a mulher é como o jogo da loteria: quanto mais números joga, mais possibilidade que seja escolhida, devido ao dobro da jornada de trabalho e doméstico, dependência econômica e social, genética, violência de gênero, etc. Tudo isto parece que dispara as possibilidades. Dito isto, ser mulher, é um elemento de risco?
R - Estatisticamente sim. O simples fato de ser mulher já nos coloca a frente dos homens na chance de desenvolver uma depressão. Mas a multiplicidade de funções e papéis por si só não representa um risco, mas sim a má administração destes diferentes papéis e a falta de equilíbrio entre obrigações e prazer.
P - Apesar de a mulher estar rompendo tabus no decorrer da história, todavia uma maioria segue desempenhando um papel menos gratificante, de menor prestígio, além de uma sobrecarga de trabalho fora e dentro de casa. Denise, aspectos sócio-culturais são determinantes na hora de explicar a maior freqüência da depressão na mulher do que no homem?
R – Sim, desde que sejam levados em conta também a predisposição genética e os fatores biológicos (hormonais) já citados. Estudos também dizem que a mulher é mais sensível a conflitos nas relações sócio familiares do que os homens e que parecem mais propensas que os homens a lembrar de acontecimentos negativos do passado. A influência psicossocial e cultural não só é importante para entender a gênese dos estados depressivos, mas também para entender os sintomas, que também se diferenciam nos homens e mulheres. Na maioria dos casos a mulher tende a apresentar mais sintomas somáticos que os homens, ou seja, manifesta com maior freqüência sua dor psíquica por meio de queixas físicas. E esta dor psíquica, pode sim estar relacionada à pouca valorização de seu papel na sociedade e ao acúmulo de responsabilidades.
P - Como se distingue quando está no terreno pantanoso do desânimo ou da depressão?
R – Esta pergunta é muito importante. Hoje há um culto à felicidade e ao bem-estar crônico. As pessoas não se permitem mais sentir tristeza, desânimo ou insatisfação. Nunca se consumiu tantas drogas ou “Pílulas da Felicidade” como nos dias atuais. Os lutos, que sempre fizeram parte da vida humana não podem mais ser sentidos e depois elaborados. É necessário anestesiar-se, para não sofrer. Sendo assim, muitas pessoas tem se medicado sem necessidade, apenas por medo de sentir dor. E raramente é realizado um diagnóstico diferencial. Separação, perda de emprego, morte de um ente querido etc são acontecimentos previsíveis na vida. Perder faz parte em alguns momentos e sentir a perda leva a um melhor e mais saudável recomeço. Quando os sintomas depressivos surgem sem um fator desencadeante aparente, ou seja, a pessoa está aparentemente bem em vários setores da sua vida e mesmo assim se sente freqüentemente muito triste, sem vontade, sem ânimo e sem “razão para viver”, é preciso ficar atento, pois pode estar desenvolvendo uma depressão. Tristeza pelas perdas inexoráveis da vida, períodos de maior insatisfação ou desânimo, sintomas isolados (insônia, inapetência etc) com causas claras e evidentes não se enquadram num quadro depressivo.
P - Alguns países estão medindo o bem estar das pessoas, enquanto o produto interior bruto visa somente transações econômicas. Ou seja, muito pouco se sabe sobre o autêntico bem estar das pessoas. Dito isto, o estresse, a ansiedade e a depressão tem sido baixas freqüentes no mundo do trabalho. Não parece legítimo educar para a felicidade?
R – Sim, mas não como um culto ou religião, e sim como um resgate do que é realmente importante para o ser humano. Educar alguém para ser feliz é deixá-lo livre para fazer suas escolhas, de acordo com o seu jeito de ser. É não transmitir preconceitos. É desenvolver a crítica ao mundo de consumo e a consciência do que cada um na verdade necessita. Educar para a felicidade consiste em estimular o autoconhecimento, a visão micro e macro cósmica, a percepção do outro, do mundo e o respeito para com eles. Educar para a felicidade pressupõe uma desaceleração, uma parada para que cada um avalie o que realmente deseja e se aproxime mais de sua essência. Educar para a felicidade implica em rejeitar o efêmero e descobrir o essencial, e isto passa pelas relações afetivas e pelos vínculos estabelecidos durante a vida.
P – Denise, muitos executivos crêem que a felicidade está no êxito profissional, no status social e em ter muito dinheiro. Portanto, dentro da sua opinião a felicidade está em posses materiais e em logros profissionais?
R- Definitivamente não. Se um indivíduo não tem dinheiro, posses ou status ele pode ficar menos feliz, preocupado, tenso, ansioso. Mas se ele tiver tudo isso, não será necessariamente feliz. Na minha opinião a “felicidade” ou “estar com maior freqüência feliz”passa pelas pequenas e cotidianas alegrias diárias, as quais temos que buscar de forma atenta e disciplinada. Transformar o dia de hoje, num dia especial de alguma forma, seja através de uma conversa interessante, um gesto afetivo, um banho prolongado, um olhar mais demorado para a natureza, enfim, fará com que os dias não passem tão rápido e em branco, gerando tédio e monotonia. Resgatar a emoção, sentir com intensidade, conviver com pessoas, cultivar o amor, ser mais tolerante, fazer o que se gosta são pequenos e simples segredos para uma vida mais feliz. Se tivermos sucesso profissional e muito dinheiro, melhor ainda. Senão, com certeza não teremos uma vida menos rica.

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