terça-feira, 22 de fevereiro de 2011

"Nada melhor do que imagens que nos dê literalmente água na boca"

   Não é exagero afirmar que Ricardo Braescher pode ser comparado a grandes fotógrafos que marcaram, influenciaram a forma de entender o ofício. Dentre eles, podemos mencionar Robert Capra, Henri Cartier-Brensson, David Seymor e George Rodger. Além de competentes na arte da foto, o que tem em comum é a forma de contar a história através de um estilo de cada um e insaciável curiosidade. Braescher, com formação   na Escola Superior de fotografia em Kohn - Alemanha, ganhou vários prêmios dentre eles internacionais como Rollei Salon, primeiro colocado, realizado na Inglaterra. Dentre as exposições realizadas incluem Magia dos Ausentes com a temática da região mais fria do Rio Grande do Sul; Art Galery em Nova York; e a participação de maior feira de fotografia que acontece no mundo na cidade Kohn. Atualmente, o quartel general de Braescher é em Porto Alegre e também São Paulo. Nesta edição  contou com a participação especial de Ivana Werner que nas horas de lazer milita na arte da fotografia em que sua colaboração foi fundamental para o enriquecimento da entrevista. Tenham uma boa leitura.


A caça de uma foto.


P . O encontro de Norman Foster para arquitetura surgiu através da sugestão de um psicológo em buscar um trabalho criativo. Ricardo Braescher , como surgiu a vocação de fotógrafo?

R - Uma das coisas que mais me impressionava quando criança era observar meu tio de origem tcheca da cidade de Plzen, quando fazia algumas fotografias com sua, agora antiga, Rolleiflex.
Alí acredito que começou meu encantamento por aquilo que não sabia poderia ser uma profissão, imaginava sempre como um hobby. Com o auxílio dele comecei a observar e entender  a questão de composição e enquadramento que ao longo da vida me foi muito útil em vários aspectos na realização dos trabalhos que realizava. Tive muito interesse sempre em cinema, pois queria entender o que tinha acontecido antes ou depois da imagem fotografica ter sido feita. Mas na época, sem as mínimas condições de cursar ou ir em frente com a área da 7 arte, me dediquei a fotografia.  Apesar de ter realizado alguns documentários e animações com a bitola Super8 e 16mm. Tendo inclusive recebido prêmios em festivais nacionais e Internacionais.  No tempo da universidade fui Prof. Assistente da cadeira de Cinema na PUC/RS.....um aprendizado constante em todos os sentidos.

P - Quais foram as principais dificuldades que enfrentou nesta profissão? E, quais são as principais gratificações?

R - Com relação as dificuldades eram as próprias decorrentes de qq início de atividade, falta de capital para tocar mais rapidamente o que a mente aprendia com os ensinamentos dos livros, filmes e profissionais da época me passavam. Mas as gratificações foram muitas e isso percebo agora com o passar do tempo. Várias imagens que fiz, hoje são relíquias de momentos que não voltam mais. E principalemente sempre com o objetivo de tentar alcançar o melhor, não somente em termos de equipamento mas de qualidade de trabalho a ser realizado. Sempre me dediquei muito mais ao formato 6x6, isso credito oriundo da Rollei, neste formato realmente me sinto muito a vontade fazendo os trabalhos solicitados. E claro com o tempo passei a utilizar o formato 35mm, pela practicidade de deslocamento de equipamento, sempre com material da Canon de quem sou fã incondicional.

P - Quais são os benefícios que a era digital trouxe para fotografia? Como foi esta transição que é abandonar o filme e a revelação?

R - A era digital, num primeiro momento abriu as portas para a popularização da fotografia, mas, nem todo mundo que hoje tira fotos, faz fotografia. Apenas registram um momento e que muitas x claro com belíssimas imagens. Acredito que para mim a transição foi fácil pois, trabalhava já com equipamentos como Colormaster + fotômetro de mão + tripés com bolhas de nível + e cameras que faziam correção de pespectiva. Com toda esta bagagem, consegui muito rapidamente entender o funcionamento dos recursos infinitos que a era digital estava nos apresentando.
Ainda hoje, e cada vez mais, fico impressionado com os comentários que ocorrem quando o pessoal vê algumas imagens e fazem a pergunta mais vazia que conheço.....qual a máquina que tu usa pra fazer isso ?  .... e sempre tenho que dar a mesma resposta. Que é..... poderia usar talvez a mesma quea tua, pois os recussos estão dentro dela, o que varia é o conhecimento dos recursos e do resultado final a ser obtido. E sempre pergunto ao pessoal....já leu o manual de tua câmera ? Infelizmente a resposta é quase sempre a mesma, não. Não tenho tempo pra isso e não entendo o que ali esta escrito. Base e estudo, com perseverança, é tudo para uma dedicação completa à alguma coisa que se quer realizar.


P - Atualmente, todos possuem uma càmara e fotografam tudo. Dentro do teu ponto de vista, traz algum prejuízo a profissão de fotógrafo?

R - A popularização da fotografia é algo fantástico pela possibilidade de dar a oportunidade das pessoas de registrar os mais váriados momentos. Claro que isso levado ao nível profissional, temos alguns problemas que aparecem, alguns ao fazerem boas fotos, se acham fotógrafos e começam a realizar trabalhos dos mais variados. Afetando com isso o mercado com relação aos valores cobrados e trazendo um trabalho nem sempre de qualidade. E por uma questão de custos, o cliente vai se acostumando com uma baixa de qualidade no produto recebido.
Mas os bons profissionais sempre terão muita atividade e serão valorizados desde que o mercado entenda que um bom profissional deva ser bem pago. E isso não vem da camera / máquina que ele usa e sim em razão do seu conhecimento e vivência em relação ao assunto a ser abordado.

P - Percebo que tens uma grande experiência em fotografar arquitetura e gastronomia. Qual é a importância de uma foto de qualidade neste segmento?

R - Dois temas apaixonantes, gastronomia e arquitetura. Na questão da gastronomia, o ser humano sempre voi acostumado a comer com os olhos, como diz o ditado popular.
E para tornar isso o mais atrativo possível, nada melhor do que uma imagens que nos dê literalmente água na boca. E uma vontade imensa de consumir o prato. Para isso vários requisitos técnicos são necessários e o primordial, não tem a ver própriamente com a técnica fotográfica e sim com o conhecimento humano. Temos que ter paciência e calma para entender as mudanças que o alimento sofre ao ser trabalhado pelo Chef. Pequenas alterações de textura ou coloração podem provocar ou uma linda imagem ou um desastre em termos de apresentação do prato. A fotografia de  arquitetura é algo que tenho também realizado a muito tempo e aprendi a lidar com as mais variadas situações. Sempre procuro conversar com que é o responsável pelo projeto e entender as sutilezas daquilo que criou. Um fator que mais conta para realização neste trabalho, foje completamente de nosso controle e que muitas vezes é difícil de colocar para os profissionais que solicitam as imagens de suas obras. Fator este que é o tempo,o clima e o momento certo de fazer a obtenção da imagem. Que mais uma vez nada tem a ver com a camera/maquina que se esta usando. Mas ter a certeza de que o momento certo deve ser aguardado e saber de ante-mão o resultado a ser obtido.


P - Um dos mestres da fotografia Cartier Brensson sempre enalteceu o instante decisivo e que a fotografia é o reconhecimento simultâneo numa fração de segundo de um fato.  Ricardo  Braescher, como funciona na prática? O que é mais importante a técnica, o método ou a sensibilidade do fotógrafo?

R - Uma coisa é certa.... apertadores de obturador, tem aos montes por aí, mas saber o pq estão fazendo isso e captar a essência e real magnitude de uma imagem , isso depende de sensibilidade e não de equipamento. Peço sempre a todos os que querem se dedicar um pouco mais a esta atividade , que olhem com mais carinho os livros de fotografia e procurem saber como foi obtida a imagem ,em que condições foi feita, o que influenciou. E principalmente, entender o momento e situação do fato.

Ou seja olhos atentos para os detalhes.... sempre !! Conseguir fazer a fotos antes que ela aconteça, perceber os sinais do momento a ser criado. Literalmente estar focado.

P - Para finalizar, a fotografia é uma arte, um dom e muitas vezes ela nos mostra o que a vida esconde de extraordinário. Por que esta arte é tão pouca valorizada?

R - É uma arte até bem valorizada, desde que dentro de um mercado que entenda isso. Em países desenvolvidos, é muito bem vinda sempre, nos mais diferentes lugares e com  os mais diferentes apelos artísticos ou conceituais. Prova disto são os mais variados livros de fotografia produzidos pelo mundo afora, principalmente na Alemanha, onde a produção literária neste área é fantástica.
Fotografia é uma atividade onde somos eternos aprendizes.

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