Diretor, professor da Oficina do Livro para autores, escritores e leitores e com grande capacidade analítica, Paulo Tedesco responde o futuro do mundo editorial com o advento do livro digital para o Blog Alex Cruz. Ele mesmo define com o impacto do livro digital ao mundo editorial como um fenômeno ou melhor, um tsunami e lança uma advertência aos governos que não adotarem uma linha política de defesa clara ao direito do autor vaticinando que o Estado terá a responsabilidade ao atraso do seu povo. Navegando nas águas profundas desta nova tendência que está revolucionando o mundo, Blog Alex Cruz deseja aos leitor@s uma boa leitura!!!
![]() |
| Dentro do seu escritório, Paulo Tedesco analisa a influência do livro digital. |
R - Chamo de tsunami editorial o que ainda está por ocorrer. Ninguém consegue precisar o que irá ocorrer quando os leitores digitais, esses aparelhos que a cada dia surgem em formatos diferentes, chegarem ao consumidor a custo zero ou próximo de zero. A partir desse instante é que se perguntará sobre o impacto no mercado editorial, aliás, não seria melhor pensarmos não mais somente em mercado e sim em educação? Afinal, além do mundo editorial, o educacional será impactado significativamente com o barateamento das tecnologias.
P - Já se pode empregar o tempo passado ao afirmarmos que os editores tinham o poder absoluto de decidir o que se lia até a entrada do livro digital? O poder passar ao leitor?
R - Sim, podemos, acabou o monopólio e creio também que o poder da lista dos mais vendidos também. Serão as redes sociais que ditarão as leituras. E é nesse ambiente digital, associado a grupos específicos cada vez mais amplos e numerosos, que se darão as orientações do que pode e deve ser lido. Eu mesmo, leitor voraz, baseio-me por indicações em redes sociais e sítios dedicados à literatura. Mas sou um “jurássico”, meu consumo não conta, o que conta é o novo leitor, tal como na música, serão os jovens leitores que mostrarão o rumo.
P - Esta revolução dá uma sensação em termos de comparativo com a revolução Copérnica, quando o homem perde a idéia do centro do universo, porque compreendeu que a Terra gira ao redor do sol, ou seja, não é o mundo que dá volta ao redor da Terra e sim que a Terra que dá volta ao Sol, ao consumidor, ao leitor. O mundo editorial está pronto ou preparado para esta grande mudança?
R - O mundo editorial definitivamente não sabe para onde ir e adota a estratégia de autopreservação e cautela, ao contrário do que fez a indústria da música diante do lançamento da digitalização em CDs. Quem deve estar preparado, a meu ver, é a sociedade civil organizada e o estado, é nessa direção que corre a coisa toda. É a autoeducação quem ganhará com a liberdade do conteúdo escrito, resta preservar direitos autorais e lidar com o que irá restar do mercado de vendas de conteúdo.
P - Os editoriais estão se mexendo, reagindo ao adotar e-book. Dentro do seu ponto de vista, o e-book como está já nasce velho? Ou o que irá pesar é a forma de trabalhar contando com o leitor?
R - O que rege esse mercado é a lei da inércia. O e-book até o momento tem sido alvo da estratégia de dar respostas ao que o mercado e o leitor propõe face às inovações. Ele não é de fato uma solução. Foram os leitores digitais que empurraram para que se tivessem formatos de livros digitais, e todos estão preocupados, nitidamente, em tentar manter o velho modelo de lucros e vendas. O e-book nasce velho por isso, ele é uma tentativa de fazer a transição do suporte papel para o digital sem que o modelo de vendas desabe de inopino.
P - Com esta presença marcante do editor, muitas vezes surgia ou ainda surge a confusão se era impressor ou distribuidor. Qual é o futuro do editor?
R - Boa pergunta. Na origem, o editor era tudo, às vezes até escritor. Ainda na atualidade temos editoras que detem máquinas de impressão, logística em distribuição e livrarias próprias. Creio daí a confusão. Claro, nessa confusão acrescente-se o fato de que raramente se “abria o jogo” do mercado. Os títulos eram encarados como divinos, dados por algum gênio da escrita e bendito por outro gênio da edição. O que era, e é absolutamente falso. A produção de livros sempre foi complexa e multifacetada, e dispendiosa, jamais divina, sempre existiram trabalhadores braçais e intelectuais por trás de cada obra. E foram os melhores trabalhadores que produziram as melhores obras. O autor e editor sempre levaram a fama, a que o mercado tratou de preservar como verdade para garantir as manchetes dos jornais e TVs.
O editor terá o papel de não só orientar e encaminhar o aprimoramento da apresentação dos textos e acessórios como ilustração e outros adereços, como também será um filtro, pois diante do volume impensado de novos títulos, cada vez mais precisaremos de um editor no facebook/twitter dizendo que este ou aquele livro está saindo de seu trabalho editorial. Justifico com um exemplo prático: o problema da tradução. Um bom editor, uma boa casa editorial, não deixará passar ao leitor uma tradução ruim, que comprometa a leitura, e, obviamente, poderá cobrar por isso. Leio em papel recentemente o livro Crime e Castigo do Dostoiewsky e a tradução me dá arrepios. Tudo porque optei por preço ao invés de qualidade editorial.
P - No site www.oficinadolivro.net.br , o senhor afirma que o "livro em papel terá uma vida relativamente longa", no entanto, se o objetivo é vender, como sucede com os jornais onde se paga alguns veículos para ler via internet, também terá a opção de comprar em papel o livro. Não te parece que estará conectada de ambas as formas ou realmente no decorrer do tempo, acaba o papel? E para finalizar, dentro desta série de perguntas, como ficam os direitos do autor?
Veja só, o papel derivado da celulose, por ser um commoditie e sujeito às oscilações do mercado internacional, ainda tem muito mercado para evoluir. Mercados gigantescos ainda não consomem papel como poderiam e certamente passarão a consumir ao longo dos próximos anos. Pode-se especular, portanto, que o papel terá longa vida, e nessa longa vida, é legítimo também entender que o livro em papel (não creio que o mesmo ocorra com o jornal) acabará sendo barateado e muito mais acessível do que hoje.
Direitos do autor? Isso merece um seminário! Mas chamo atenção para um detalhe: o estado que defender ferreamente o direito de autor terá seu país em outro patamar de cultura, do contrário, ou seja, o estado que não defender seu autor, relegará seu povo ao atraso e à pirataria deslavada (inclusive praticada pelos grandes de outros países), enterrando sua cultura e identidade num poço tão fundo que dela não se ouvirá suspiros.

Parabéns pela excelente entrevista. Helena
ResponderExcluirLatu sensu, o e-book surgiu para dar um basta na ganância do editor, agilizar a divulgação do autor e baratear o livro para um melhor accesso ao leitor. Esse momento precisa ser brindado como a carta de alforria da literatura mundial. Parabéns pela entrevista, Alexandre! Annabel Sampaio.
ResponderExcluir