Em uma viagem encontrei um amigo, Pastor em Moçambique. Frente ao avanço do islamismo no continente, justificou para mim a perda de espaço do cristianismo na África. Entre outras causas listou a poligamia, presente na cultura tradicional africana, não tolerada pelos credos cristãos. Quando penso que um homem pode ter três esposas, ou mais, penso sempre que neste caso, se não houver uma guerra, há pelo menos dois sem parceira.
È uma equação matemática. Se fulano tem dez mulheres, há nove homens sem mulher. Talvez isso também explique as guerras. Se estamos a falar em poligamia, entretanto, há sempre os entusiastas da idéia. Se pensam sempre como aquele com as dez, nunca como um dos nove literalmente na mão (talvez esteja ai a origem da expressão … ).
Essa avaliação entusiástica é a mesma que fazem os defensores do endurecimento das leis, fim das garantias processuais, dos que criticam o garantismo; aqueles mesmos que querem mais cadeia, pena de morte, redução da idade penal etc., como a panacéia que irá redimir a todos e restituir a desejada segurança .
Pensam sempre isso para os outros. Se um filho seu estiver listado como suspeito de um crime, irão querer todas as garantias, todas as instâncias.
A idéia da pena de morte e do endurecimento das leis, da diminuição das garantias legais e fragilização da defesa, é como a poligamia. O cara nunca se pensa entre os nove que estão na mão, nunca se pensa acusado, injustamente muitas vezes, de um crime bárbaro.
Se a riqueza é o bem com pior distribuição na humanidade, chego a pensar que a bondade seja o valor mais bem distribuído. Enquanto praticamente todos julgam possuir menos que merecem, de regra todos se declaram bons e fica quase incompreensível entender porque o mundo é mau.
Como todos se pensam bons e “o inferno são os outros”, não surpreende o entusiasmo por pena de morte e redução de idade penal. É sempre para os outros.
Daí porque às vezes é preciso chutar o balde e discutir os temas com maior precisão, como diria Fernando Pessoa. O politicamente correto muitas vezes nos inibe e de certa maneira tira a espontaneidade de alguns debates.
As coisas muitas vezes ficam no plano da superficialidade, conduzidas pelo fato do dia, num renovado casuísmo, que acaba produzindo alterações legislativas inadequadas para a finalidade que a todos anima, especialmente neste tema da segurança pública.
João Batista Costa Saraiva
Titular Regional da Infância e da Juventude de Santo Ângelo

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