quarta-feira, 11 de janeiro de 2012

Dama de Ferro, o filme



Baltasar Gracián disse há alguns séculos: "Não vale nada o conhecimento se adiante o coração fica." Dito isto vale a pena ir ao cinema assistir ao filme "Dama de Ferro" interpretado por Meryl Streep, não só pela genial performance da atriz, mas também porque é possível comprovar na "tela grande", o que enfrenta uma mulher que se lança a disputar a liderança de seu partido. Há uma cena em que Tatcher comunica ao seu marido, Denis, na cozinha de casa, que está decidida a enfrentar a batalha para ser eleita líder do Partido Conservador.  Perplexo, Denis reprova, dizendo que a esposa sempre pensou somente em si mesma, esquecendo da família. Ele tinha as suas razões. A essa altura da vida pensar em uma mulher à frente de um partido político era uma extravagância. Porém, com obstinação e teimosia Tatcher tomou suas decisões e defendia-se dos olhares displicentes e das risadas dos homens quando insistia em tomar a palavra nas reuniões. Ter o desejo de ser líder de um partido político ou presidente de um governo é um fator importante para se chegar à meta. Nem todos estão dispostos a levar este tipo de vida que quis Tatcher.

A vocação de ser "O Número Um" é despertada desde a infância. Que digam os psicólogos. Somente em circunstâncias excepcionais alguém de 60 anos descobre que quer ser líder. Quando Denis a pede em casamento, Tatcher avisa: "Não sou como as demais, devo ao serviço público, não quero envelhecer limpando xícaras de chá." O primeiro problema de uma mulher na política é ser levada a sério e não tratada como se fosse uma boneca. Se existem poucos homens que aspiram à liderança, é muito menor o número de mulheres disposto a combater para ser a Número Um. E não é só pelas dificuldades de chegar ao objetivo em um mundo dominado pelos homens e sim porque as mulheres têm outras prioridades vitais como filhos e família.

Até uma mulher tão de ferro como Tatcher pode derreter-se quando seus dois filhos pequenos saem chorando por detrás do carro em que sua mãe se dirige a tomada de posse na Câmara dos Comuns. Nem todas as mulheres suportam essa cena sem voltar atrás. O fio condutor do filme tem a ver com isto. Tatcher sofre, na sua velhice, as conseqüências de priorizar a política e a carreira, descuidando da sua família. Os fantasmas que mais a assombram em seu dormitório, não são os mineiros que ela deixou sem trabalho, nem o coletivo de pessoas dos quais tirou os subsídios. O que a atormenta é o espectro de Denis, seu marido: "Estou indo embora. Sempre se virou só." Além disso, a dor da ausência do filho que foi para a África do Sul e a infelicidade de uma filha com dificuldades emocionais até para beijar a sua mãe, são as angústias que tiram seu sono.
A mulher que não queria envelhecer limpando xícaras de chá acaba sim limpando xícaras de chá. Não é uma força de expressão deste jornalista e sim uma cena do filme que ajuda a compreender os conflitos íntimos das mulheres para empreender a batalha do poder. A “Dama de Ferro” não é a vida da líder mãe do neoliberalismo e sim a história de uma mulher.

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