quarta-feira, 29 de fevereiro de 2012

Contradição do nosso tempo


     Já dizia Jean Paul Sarte que uma imagem não é uma coisa e sim um ato. A frase me parece uma verdade essencial em uma sociedade que a representação expulsa qualquer reflexão sobre o sentido da existência. Todos estamos condenados  a ser atores de um roteiro que outros escrevem
       A grande contradição do nosso tempo é que fomos educados  em uma cultura da responsabilidade, produto dos valores religiosos que imperou no Brasil e agora temos que sobreviver em uma sociedade tiranizada pela imagen e das aparências onde qualquer discurso volta-se incompreensível se não se transforma em espetáculo.
       Em um mundo que a religião  é um vestigio estamos condenados a uma banalidade sofrível e angustiante. Se Deus está morto, como dizia Nietzche, o homem se transformou em verme a mercê do cego azar, segundo sinalizava Richard Dawkins em um debate com o arcebispo Canterburry. No entanto, o ser humano necessita um pouco de transcedência que contribua um sentido a sua vida. Nos rebelamos contra uma existência animal em que somos um insignificante dentro da escada da evolução e temos uma tendência a pensar que nossa vida tem que ter algum sentido.
        Por isto que caminhamos para a arte, a ciência, a literatura. Algo que faz dar uma ressonância a nossas misteriosas vibrações interiores e que eleva por cima das misérias cotidianas . Escrever também tem o intuito de escapar a uma tirania do azar que nos destrói.
       Saudades dos tempos passados que os seres humanos podiam sonhar que lutavam por um mundo melhor. Hoje não é possível ter ideais em uma sociedade desgarrada pela lógica da rentabilidade económica e a supremacía de um espetáculo em que todo ato se reduz a uma mera imagem.
    Não cabe terminar, portanto, falar nos términos de verdade ou mentira e sim de pura representação. O que conta não é que se faz ou o que pensa e sim o que se diz . O que cada um parece diante dos demais. A aparência é a lei suprema que rege nossas vidas.
   Isto é especialmente perceptivel na política em que ninguém está disposto a assumir as consequências de seus atos. A construtora Andrade Gutierrez joga a culpa ao Banrisul, os militares adotam cortina de fumaça para tirar a responsabilidade das suas atuações no tempo da ditadura. O prefeito Fortunatti atua como se a sua gestão não tivesse nada a ver com o abuso de preço da passagem de transporte público em Porto Alegre, os empresários demonizam os sindicatos e os sindicatos aos empresários.
    Nada mais coerente em uma sociedade que o importante é a imagen, que carece de valores e que jamais conseguiu interiorizar que supõe uma democracia. Em suma, uma sociedade que não confía em si mesma porque confunde o que parece com que é. A tarefa essencial do nosso tempo é encontrar os principios que conferem um pouco de sentido e de motivação a nossas vidas, mas isto é muito em pedir quando cinco minutos de celebridade valem mais que qualquer utopia!!

2 comentários:

  1. No Direito consuetudinário(costume)valia a palavra e "fio do bigode", parece que esse princípio perdeu seu valor, ninguém quer assumir nada até para não se responsabilizar pelo que de dever já está enquadrado, por isso a superficialidade das coisas. Toda via devemos continuar lutando para que voltem os princípios como regramento dos contratos e enfim do dia a dia das pessoas.

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    1. Obrigado pela mensagem, Luci e com toda razão o teu comentário.

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